quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O homem e a evolução dos seus instintos.

O homem, em sua evolução, passou por várias etapas. No princípio, quando ainda mantinha um estreito parentesco com os animais, nele predominavam os instintos. Mais tarde, as sensações e emoções se tornaram determinantes. Quando já se encontrava mais avançado em sua caminhada, o ser humano passou a valorizar os sentimentos. Isso não significa, claro, que o indivíduo tenha se despojado de todos os instintos, sensações e emoções, pois eles são extremamente necessários para a manutenção da vida humana. Cada uma destas fases existenciais tem sua função primordial para a sobrevivência da humanidade.

O instinto, do latim instinctu, é algo inato ao ser vivo, um tipo de inteligência no seu grau mais primitivo. Ele guia o homem e os animais que possuem um grau mais elevado em sua trajetória pela vida, nas suas ações, visando justamente a preservação do ser. Os instintos são adquiridos nas experiências vividas, no confronto com determinadas situações e nas respostas a elas, e então herdados pelas gerações posteriores. Eles se manifestam nos homens, na maior parte das vezes, através das reações a certas emoções.

É determinante para a conservação da raça humana a existência do instinto, pois ele nos motiva a agir quando necessário. Mas, certamente, o homem não deve mais, em sua etapa atual, se deixar dominar pelos instintos, do contrário ele se animaliza e pode cometer atos brutais. O instinto pode ser convertido em inteligência quando o indivíduo consegue agir movido pela vontade e pela decisão própria, não mais apenas por impulsos. Quando o sujeito age baseado primordialmente nestes, ele está atuando, segundo Sigmund Freud, no campo do princípio do prazer – aliás, esta concepção freudiana causou uma grande polêmica na época, pois a sociedade vitoriana não podia admitir que parte do seu ser era comandado, nos momentos de gozo e volúpia, por impulsos irresistíveis e repetitivos, independentes de sua vontade, e não por razões mais nobres.

Durante algum tempo, os terapeutas cognitivos colocaram a idéia freudiana do homem subjugado por instintos animais em plano secundário, mas atualmente neurocientistas como Donald W. Pfaff e Jaak Panksepp resgatam esse conceito, e mais, concebem o processo instintivo humano sobre nosso comportamento como algo ainda mais rudimentar do que foi imaginado por Freud. Segundo eles, somos mais parecidos com os primatas do que poderíamos supor. Na parte anatômica e química do que foi designado como ID, nosso cérebro é muito semelhante ao dos mamíferos que abrigamos em nossa morada como animais de estimação.

Há várias espécies de instintos, mas basicamente a psicanálise, fundada por Sigmund Freud, determina dois instintos principais, em luta constante dentro de cada um de nós – Eros, na esfera da vida, e Thanatos, na da morte. Eles governam nossas tendências naturais para a construção e a destruição. É essencial que eles estejam em equilíbrio, para que tenhamos um desenvolvimento mental e emocional saudável.

Costuma-se dizer que os instintos, quando se desviam de sua trajetória considerada normal, é convertido em pulsão – impulso do inconsciente que leva o indivíduo à ação com o objetivo de anular um estado de tensão. Diante de alguém que nos desperta uma atração sexual, a pulsão nos conduz a um ato concreto, caracterizado como objetivo sexual. Biologicamente, o instinto tem por fim a reprodução humana; psicanaliticamente, o foco na manutenção da espécie é substituído pela centralização na questão do prazer e, deste ângulo, os psicanalistas vêem o que se considera perversidade como mera pulsão, pois o que se realiza não é nada além da necessidade de relaxar uma tensão sexual. Assim, desse ponto de vista, essa forma sadia de união sexual não evidencia uma perversidade do instinto. Porém, isto não significa que não existam desvios sexuais, que extrapolam a conduta sexual normal e igualam o homem ao animal, ou melhor, muitas vezes o levam a um patamar inferior ao da maior parte dos seres considerados irracionais.

   Na música Da Banda Do The Evolution;  Pearl Jam;  Demonstram que guerras ,religiões e políticas são praticados por puro instinto humano...Vale a pena ouvir e ler sua tradução.

Paralelos e Sincretismo no Ato Sexual

A frequência do uso de termos gastronômicos para descrever a atração erótica é impressionante. A bíblica canção de Salomão é um dueto completamente gastro-erótico, no qual ela descreve os beijos como melhores do que vinho, e ele descreve os lábios dela como favos de mel,sua língua como leite e mel, e seu ser completo como um jardim de delícias, repleto de temperos. Doce de leite e mel são termos carinhosos, assim como doce de coco,pãozinho,biju ou chuchu. O néctar dos meus olhos certamente não é um néctar.  Gostosa é tanto comida quanto a mulher sensual. Pão é tanto alimento para o organismo como delicia para os olhos femininos.

O empréstimo reverso talvez seja menos comum,mas ainda assim freqüente. Um banquete pode ser descrito como uma orgia. Uma sobremesa deliciosa pode ser louvada,entre familiares, como uma delícia orgásmica. A versão cinematográfica da novela "Tom Jones" de Henry Fielding, contém uma cena debocada de sedução na qual comer não se distingue de sexo. Os filmes onde sexo e comida são fortemente  entrelaçados são tão comuns que poderiam compor um gênero: "A festa de Babbete, O cozinheiro, O ladrão, Sua mulher e o amante, Como água para chocolate ". Em todos esses casos, o erótico se espalhar pela gastronomia, a gastronomia pelo erótico. É extraordinário que esses entretenimentos sejam servidos de modo totalmente auditivo e visual__nem uma molécula de substância é trocada com os membros da audiência __e, no entanto, a experiência é gustativa.

A boca é o ponto focal do Sincretismo entre alimento e sexo, ao passo que o ânus tem o papel similar, mas bem mais secreto. No Brasil "comer" alguém é manter relações sexuais com a pessoa. Nos Estados Unidos,  "comer" alguém é fazer sexo oral. A boca é, ao mesmo tempo, local de ingestão de comida e zona erógena. O ânus é ao mesmo tempo o local da eliminação de dejetos e da atividade sexual ilícita __a sodomia.

No entanto, de forma mais ampla, comer sempre serve como parte da construção cerimonial para a atividade sexual. Na sociedade urbana contemporânea, convidar uma mulher para jantar freqüentemente é visto como prelúdio para pedir que faça sexo__um tipo de troca recíproca de alimento por favor. Em muitas sociedades, a oferenda de um presente em alimento feita por um pretendente para uma moça faz parte das cerimônias de noivado.

Karl E. Scheibe  (livro : "O drama da vida cotidiana " pg 141 e 142 )

A arte de dar risadas

Para o filósofo Alemão Immanuel Kant : "A risada colabora com a saúde ao restaurar o equilíbrio emocional" ( Kant)
 Sem contar que uma gargalhada não somente é gostoso e divertido como também faz bem para a saúde listamos os principais benefícios de dar risadas:
 Quais os benefícios de dar risadas?

1. Diminui o nível de colesterol no sangue, já que equivale a um exercício aeróbico.

2. Favorece a digestão, ao aumentar as contrações dos músculos abdominais.

3. Contribui para aplacar a raiva.

4. Contribui para uma mudança de atitude mental que favorece a diminuição de doenças, já que aumenta o ritmo cardíaco e o pulso; quando rimos, liberamos endorfinas (hormônios da felicidade).

5. Diminui a glicose no sangue.

6. Faz-nos liberar emoções negativas como o medo e a angústia.

7. Potencializa as relações sociais

  A risada também é um dos assuntos que chamou a atenção de Henri de Mondeville, cirurgião medieval - século XIII que dizia : " As emoções negativas podem interferir na recuperação depois de uma operação, enquanto que a alegria, o positivismo e a risada podem facilitá-la"

 A quem diga que rir é o melhor remédio, e eu realmente concordo visto que tanto no estudo da psicologia ou no ramo filosófico e sociógico desde a Arte do Sarcasmo do Velho Diógenes conhecido como o pai do cinismo O cinismo foi uma corrente filosófica fundada por um discípulo de  Sócrates chamado Antístenes  e cujo maior nome foi  Diógenes de Sínope, por volta de 400 a.C., que pregava, essencialmente, o desapego aos bens materiais e externos. O cinismo está, ainda, relacionado com a busca pela verdade, de tal forma que o cínico diz o que pensa sem o artifício de eufemismosː pelo contrário, a integridade moral o impede de mascarar a realidade para torná-la mais atraente. Ao contrário do irônico, que revela através da negação, o cínico o faz pela via direta. É visto como indiferente aos sentimentos alheios.

 Também na Literatura O sarcasmo é uma  figura de estilo  muito utilizada nas artes orais e escritas, designadamente na literatura e na oratória.Fyodor Dostoyevsky foi um dos grandes representantes do uso deste recurso estilístico, definindo-o como "o último refúgio dos modestos e virtuosos quando aprivacidade das suas almas é invadida vulgar e intrusivamente".

 A arte de contar uma boa Piada :
  " Vamos fazer uma comparação entre os Japoneses; americanos e brasileiros ....eles estão  ansiosos para ligarem o novo aparelho que compraram ....O japonês vai colocá-lo para funcionar , e antes de ligá-lo lê o manual ; Já o americano é diferente liga primeiro e lê o manual; já o brasileiro. ..liga o computador; danifica o computador;  depois queima o computador e é aí que o idiota lê o manual ".

 Não sei se a piada foi boa, mas espero tirar a risada de uns 10% dos que estão na comunidade. ...A risada também é um fator de expressar alegrias quando estamos ao lado de quem gostamos um casal apaixonado por exemplo ...isso costuma-se desencadear em uma mulher quando está acompanhada do homem de quem ela gosta Segundo o neurocientista cognitivo Scott Weems, A valorização do humor não tem a ver somente com nossa química interna. Ela atende a uma finalidade social e evolucionária poderosa que ajuda a orientar o desenvolvimento das relações humanas de inúmeras maneiras. O mesmo acontece com outras atividades. Quando lemos, estamos sempre pensando em qual será a próxima palavra antes de chegarmos a ela e em situações sociais nosso subconsciente cria previsões de curto prazo sobre como os outros irão se comportar.  Esses efeitos neurais tornam-se mais intensos quando é você quem conta a piada. Ori Amir, pesquisador da University of Southern California, realizou um dos primeiros estudos funcionais por imagem baseados em ressonância magnética que examinavam o cérebro durante a criação de humor.
No estudo, as pessoas criavam legendas para uma série de imagens Os resultados indicaram que a atividade nos centros de recompensa era mais forte e começava mais cedo quando as pessoas escreviam legendas mais engraçadas.

 Scott Weems afirma que as pessoas podem dar risadas é uma interação social entre amigos ,ou entre homem e mulher durante uma piada ou durante um elogio...tudo acontecendo em situações inesperadas ao autor ou ao ouvinte da piada ou elogio. ...freqüentemente ao elogiar as pessoas elas desencadeiam um leve sorriso,pois o elogio de certa forma proporcionou prazer....uma moça ao ser elogiada como batom, roupa ou cheiro do perfume a tendência é desencadear o prazer dela dar risadas. ...A mesma coisa acontece com uma boa Piada ou um constrangimento em público. ..isso nos faz dar risadas. O riso é nada mais que uma situação de interação social.

 Dar risadas faz parte da vida humana e faz bem pra saúde. ..um dos meus seriados que me despertava gargalhadas foi o seriado " Bean";   Mr. Bean é uma sitcom e um personagem cômico, de típico humor britânico, criado pelo ator Rowan Atkinson. É também o nome de uma série de TV e de um filme, que é a compilação da primeira temporada da série, protagonizado pelo ator. fiquei tão fã da série que tive uma interação social com o seriado tanto que não perdia um episódio.

Neo e Sócrates

Por que as personagens do filme Matrix afirmam que Neo é o "escolhido"? Por que estão seguras de que ele é capaz de realizar o combater final e vencer Matrix? 

Porque ele era um pirata eletrônico, alguém capaz de invadir programas, decifrar códigos e mensagens,mas ,sobretudo, porque ele também era um criador de programas de realidade virtual, um perito capaz de rivalizar com a própria Matrix.  Por ter um poder semelhante ao da Matrix,  Neo sempre desconfiou de que a realidade não era exatamente tal como se apresentava. Sempre teve dúvidas sobre a realidade percebida e,secretamente questionava o que era a Matrix.  Essa interrogação o levou a vasculhar os circuitos internos da máquina  (tanto assim que começou a ser perseguido por ela como alguém perigoso ),e foram suas incursões secretas que o fizeram ser descoberto por Morfeu. 

Por que Sócrates é considerado o "patrono da filosofia "? Porque jamais se contentou com suas opiniões estabelecidas,com o preconceito de sua sociedade, com as crenças inquestionadas de seus conterrâneos. Ele costumava dizer que era impelido por um espírito interior (como Morfeu instigado por Neo) que o levava a desconfiar das aparências e procurar a realidade verdadeira das coisas.

Sócrates andava pelas ruas de Atenas fazendo perguntas aos atenienses : "O que é isso em que você acredita? ", "O que é isso que você está dizendo? ", "O que é isso que você está fazendo? ". Os atenienses achavam ,por exemplo, que sabiam o que era a justiça. Sócrates lhes fazia perguntas de tal maneira que embaraçados e confusos, chegavam à conclusão de que não sabiam o que era justiça.  Os atenienses acreditavam que sabiam o que era a coragem.  Com suas perguntas incansáveis, Sócrats os fazia concluir que não sabiam o que era coragem.  Os atenienses acreditavam que sabiam o que era bondade, a beleza, a verdade, mas prolongado diálogo com Sócrates os fazia perceber que não sabiam o que era aquilo em que acreditavam.

A pergunta  "O que é? " era o questionamento sobre a realidade essencial e profunda de uma coisa para além das aparências e contra as aparências.  Com essa pergunta, Sócrates levanta os atenienses a descobrir a diferença entre parecer e ser ,entre mera crença ou opinião e verdade.

Sócrates era filho de uma parteira. Ele dizia que sua mãe ajudava no nascimento dos corpos e que ele também era um parteiro, mas não de corpos,e sim de almas. Assim como sua mãe lidava com a Matrix corporal, ele lidava com a Matrix mental ,auxiliando as mentes a libertar-se das aparências e buscar a verdade.

Como os de Neo, os combates socráticos eram também combates mentais ou de pensamento. E endureceram de tal maneira os poderosos de Atenas que Sócrates foi condenado à morte ,acusado de espalhar dúvidas sobre as idéias e os valores atenienses e,com isso,corromper a juventude. 

O paralelo entre Neo e Sócrates não está apenas no fato de que ambos são instigados por "espíritos" que os fazem desconfiar das aparências, nem apenas por ambos consultarem um oráculo e receberem como mensagem o "Conhece-te a ti mesmo", e nem mesmo porque ambos lidam com matrizes.

Podemos encontrá-lo também ao comparar a trajetória de Neo no interior da Matrix com um dos mais célebres escritos do filósofo Platão, discípulo de Sócrates.  Essa passagem encontra-se na obra intitulada "A República " e chama-se : "O Mito da Caverna ".

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O que é ser?

 Ser
 A palavra "ser" ,em português, traduz a palavra latina a expressão grega TÀ ÓNTA. A palavra latina esse é um infinitivo de um verbo, o verbo ser. A expressão grega TÀ ÓNTA quer dizer : "As coisas existentes ,os seres ,os entes, os seres ". No singular TÀ ÓNTA se diz TÒ ÓN, cuja a tradução é "o ser".

 Quando estudamos filosofia estudamos o nascimento da filosofia na Grécia, vimos que os primeiros filósofos Dedicavam-se a um conjunto de indagações principais: "Por que e como as coisas existem? " , "O que é o mundo ?" , "Qual a origem da natureza e quais as causas de sua transformação? " . Essas ligações colocavam no centro da pergunta: "O que são as coisas?" . Pouco a pouco essa pergunta passou a ser assim formulada: "O que é ser?".

Os primeiro filósofos ocupavam-se com a origem e a ordem do mundo,  o kosmos,  e a filosofia nascente era uma cosmologia. Pouco a pouco, passou-se a indagar o que era o próprio kosmos,  qual era o princípio eterno que ordenava todas as coisas e que permanecia imutável sob a multiplicidade e transformação delas.

Esse princípio foi concebido como o fundo imperecivel presente em todas as coisas, fazendo-se existir tais como são.  Esse fundo presente em todas as coisas é o "ser". Assim, passou-se a perguntar que era o ser, TÒ ÓN , subjacente a todos os seres. Com isso, a filosofia nascente tornou-se ontologia, isto é, o conhecimento ou saber sobre o "ser".

Por esse mesmo motivo, alguns estudiosos consideram que os primeiros filósofos não tinham uma preocupação principal com o conhecimento como conhecimento _não indagavam se podemos ou não conhecer o "ser",mas partiam pressuposição de que o podemos conhecer,pois a verdade, sendo alétheia __a presença e a manutenção das coisas para os nossos sentidos e para o nosso pensamento _,significa que o ser está manifesto e presente para nós e portanto, nós podemos conhecer.

Todavia, a opinião de que os primeiros filósofos não se preocupavam com nossa capacidade e possibilidade de conhecimento não é exata. Para tanto, basta levarmos em conta o fato de afirmarem que a realidade é racional e que podemos conhecer porque também somos racionais; nossa razão é parte da racionalidade do mundo, dela participando.


Livro Memórias Póstumas de Brás Cubas o Humanismo presente na Obra literária

   Sem dúvida Memórias Póstumas de Brás Cubas é o livro mais difícil  de  ser interpretado a primeira  vez  que vamos fazer sua leitura  para entendermos o texto devemos estudar com atenção o Humanismo. 
  Análise do livro :
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.— Memórias Póstumas de Brás Cubas,

Varios são os signos deixa do caráter filosófico do romance, Memorias Postumas de Bras Cubas com o seu Humanitismo e vê que o sarcasmo de Brás Cubas, diante do cientificismo propiciado por Charles Darwin e que no Brasil de 1880 ainda se "dava por coveiro da filosofia", reabre a interrogação metafísica e a perplexidade radical ante o ser humano. De fato, esta filosofia é uma sátira  ao positivismo de Comte, ao cientificismo do século XIX e à teoria de  seleção natural.Assim, um dos temas do livro, que concerne essa nova filosofia inventada pelo autor, é o de que o homem é sujeito à natureza e seus caprichos e não "soberano invulnerável da criação." Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo CLVII (157) de Memórias, recebendo um adendo no Capítulo CXLI (141), para comentar uma briga de cães. A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro; este compreende a teoria, ao contrário do Rubião de Quincas Borba, onde a filosofia fictícia recebe maior explicação e destaque. Por outro lado, vasculhando outros temas, críticos psicanalistas têm notado as cenas de nervoso na obra e não separam a relação que elas tem com a própria saúde do autor, que se acredita ter sido epiléptico, embora não gostasse de tornar isso público, o que o teria feito omitir a palavra "epilepsia" de uma das edições ulteriores, mas que deixaria escapar na edição primeira ao descrever o padecimento da personagem Virgília diante da morte de Brás Cubas: Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica..., que fora substituída por: Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...As interpretações sobre a obra foram sendo adquiridas e apresentadas por críticos diferentes ao longo do tempo; Alfredo Bosi escreveu que nenhuma interpretação sozinha, no entanto, seria suficiente para "compreender a densidade do olhar machadiano".
Os escritores  Laurence Sterne, Xavier de Maistre e  Almeida Garret constituem a gama de autores que mais influenciaram esta obra, sobretudo os capítulos 55 e 139 pontilhados, ou os capítulos-relâmpago (como 102,107,132 ou 136) e o garrancho da assinatura de Virgília no capítulo 142 dasMemórias Póstumas de Brás Cubas. Quando Brás Cubas diz que adotou a "forma livre" de Sterne, está explicitando que Machado de Assis foi influenciado pela narrativa digressiva da obra Tristram Shandy.O crítico francês Gérard Genette, por exemplo, escreve que da mesma forma que Virgílio contou a estória de Eneias à forma de Homero, Machado contou a estória de Brás à forma de Sterne. José Guilherme Merquior acrescenta o fato de que aMemórias, contudo, possui uma fantasia não presente em Sterne e um "humorismo sardônico" oposto ao humorismo "simpático" e "sentimental" de Tristam Shandy, e que as obras Viagem à Roda do Meu Quarto  (1795), e Viagens na Minha Terra  (1846) foram as outras leituras pretéritas e decisivas para a elaboração de Memórias. Merquior também cita outras possíveis influências, como a mitologia clássica, Luciano de Samósata, Fontenelle (especialmente seuDialogues des Morts, 1683), Fénelon e o Operrete Morali (1826) de Leopardi, que fariam Memórias Póstumas se aproximar do gênero cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia.  No capítulo XLIX, cita o otimista dr. Pangloss, da obra filosófica Cândido de Voltaire, que dizia que "o nariz foi criado para uso dos óculos", e faz com que Brás conclua que a visão de Pangloss está errada pois a explicação sobre o sentido de tal órgão estava na observação do hábito do faquir, que "gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste" e "perde o sentimento das cousas externas, embelza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se", terminando com a sugestão política de que a necessidade e poder do homem de contemplar o seu próprio nariz são modo de obter "a subordinação do universo a um nariz somente".

De fato, o livro está permeado de influências filosóficas e, inclusive, alguns o consideram o mais filosófico da obra machadiana. Um dos filósofos que faziam parte das leituras frequentes do autor era  Pascal, cujo prenome, Blaise, teria sido traduzido por Brás, o protagonista do livro. A "sensação dupla e indefinível", de céu e inferno, tão exposta por Pascal em Pensées, é logo referida por Brás Cubas no Capítulo XCVIII quando ele está diante de Nhã-loló. Pascal também escrevia que o homem está sempre diante do tudo e do nada, e nas Memórias Póstumas o tema da precariedade da condição humana é expresso pela miséria e pela temporalidade da vida. Embora alguns afirmem que foi com Pascal que Memórias Póstumas adquiriu um tom cético, os estudiosos não deixam de citar Schopenhauer como a principal influência filosófica do livro.  Nele Machado teria encontrado visões do pessimismo e ainda desdobrado sua escrita em  mitos e metáforas acerca de uma "inexorabilidade do destino".Raimundo Faoro, sobre a obra do filósofo alemão na obra machadiana, argumentou que o autor brasileiro havia realizado uma "tradução machadiana da vontade de Schopenhauer".  Estudiosos notam que Machado de Assis conseguiu utilizar a filosofia de Schopenhauer emMemórias Póstumas de uma forma muito profunda. Segundo este filósofo, o universo é a vontade, cega, obscura e irracional de viver e a lei do real não é nenhum logos harmonioso, mas sim um conflitivo querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente insatisfeito; "por isso, a dor é a essência das coisas, e só no ideal de renúncia aos desejos se pode colher alguma felicidade."Então, O mundo como vontade e representação (1819), para alguns, encontra seu cume alto em Machado de Assis com os desejos frustrados do personagem Brás Cubas.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O mundo de Sofia cap I

CAPÍTULO I: O JARDIM DO ÉDEN

 "algo teria de surgir a certa altura do nada"

Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o primeiro trecho do caminho. Tinham conversado sobre robôs. Para Jorunn, o cérebro humano era um computador complexo. Sofia não estava de acordo. Um homem deveria ser algo mais do que uma máquina.
No supermercado, despediram-se. Sofia morava no extremo de um extenso bairro de residências e o caminho que tinha de percorrer para a escola era quase o dobro do de Jorunn. A sua casa parecia ficar no fim do mundo, porque atrás do jardim já não havia casas, apenas floresta.
Seguiu para Klöverveien. No fim da rua, havia uma curva estreita, a que chamavam a “Curva do Capitão”, e onde quase só ao fim-de-semana se viam pessoas.
Era o começo de Maio.
Alguns jardins, os narcisos formavam coroas de flores sob as árvores de fruto. As bétulas tinham uma fina penugem verde.
Não era estranho que nessa estação do ano tudo começasse a crescer e a desenvolver-se? Porque é que essa massa de plantas verdes podia nascer da terra inanimada logo que o tempo ficava mais quente e os últimos vestígios de neve tinham desaparecido?
Sofia espreitou para a caixa do correio antes de abrir o portão do jardim.
Geralmente havia muita publicidade e alguns envelopes grandes para a sua mãe. Sofia colocava sempre um monte de cartas na mesa da cozinha, indo depois para o quarto fazer os trabalhos de casa.
Para o seu pai chegavam por vezes cartas do banco, mas ele também não era um pai comum. O pai de Sofia era capitão num petroleiro e estava fora quase todo o ano.
Quando regressava a casa por poucas semanas, passeava de chinelos pela casa, e cuidava de Sofia e da mãe de uma forma enternecedora. No entanto, quando estava em viagem, podia parecer muito distante.
Nesse dia havia apenas uma pequena carta na grande caixa do correio, e era para Sofia. “Sofia Amundsen” estava escrito no pequeno envelope.
“Klöverveien 3”. Era tudo, sem remetente. A carta nem sequer tinha selo.
Imediatamente após ter fechado o portão, Sofia abriu o envelope. Encontrou uma pequena folha, que não era maior do que o respectivo envelope. Na folha estava escrito: “quem és tu”?
Mais nada. Não havia assinatura, apenas estas três palavras escritas à mão, seguidas de um grande ponto de interrogação.
Observou uma vez mais o envelope. Sim, a carta era de fato para si, mas quem é que a tinha posto na caixa do correio?
Sofia apressou-se em abrir a porta da casa vermelha.
Como de costume, o gato Sherekan saiu furtivamente dos arbustos, saltou para o patamar e enfiou-se em casa, antes de Sofia fechar a porta.
— Bichano, bichano, bichano!
Se, por algum motivo, a mãe de Sofia estava zangada, dizia que a sua casa parecia uma feira de animais. Uma feira de animais era uma coleção de animais diversos e, na realidade, Sofia estava bastante satisfeita com a sua coleção. No início, tinha recebido um aquário com os peixes dourados Caracolinho Dourado, Chapeuzinho Vermelho e Diabrete.
Mais tarde, foi a vez dos periquitos Tom e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente o gato amarelo Sherekan. Todos aqueles animais eram uma espécie de compensação pelo fato de a sua mãe chegar tarde a casa e de o seu pai estar quase sempre a viajar. Sofia atirou a mala da escola para um canto e pôs um prato com comida de gato para Sherekan. Depois, foi sentar-se num banco da cozinha, com a misteriosa carta na mão.
Quem és tu?
Se ela soubesse! Era obviamente Sofia Amundsen, mas quem era Sofia Amundsen? Ainda não tinha descoberto totalmente. E se tivesse outro nome? Anne Knutsen, por exemplo. Seria então uma outra pessoa? Subitamente, lembrou-se de que o seu pai inicialmente gostaria de ter lhe dado o nome Synnöve. Sofia procurava imaginar como seria se cumprimentasse alguém e se se apresentasse como Synnöve Amundsen — mas não, não conseguia. Imaginava sempre uma outra pessoa.
Saltou do banco e, com a estranha carta na mão, dirigiu-se para o quarto de banho. Colocou-se em frente do espelho, e olhou-se fixa-mente nos olhos.
— Eu sou Sofia Amundsen — disse.
A moça do espelho nem sequer respondeu com uma careta. Aquilo que Sofia fizesse, ela fá-lo-ia exatamente da mesma forma. Sofia procurava adiantar-se em relação ao espelho com um movimento muito rápido, mas a outra era igualmente rápida.
— Quem és tu? — perguntou Sofia.
De novo não recebeu nenhuma resposta, mas por um breve momento não soube se tinha sido ela ou o seu reflexo no espelho a fazer a pergunta. Sofia tocou com o indicador no nariz refletido no espelho e disse:
— Tu és eu. — Não recebendo resposta alguma, inverteu a frase:
— Eu sou tu.
Sofia Amundsen nunca estivera particularmente satisfeita com a sua figura. Ouvia freqüentemente dizer que tinha uns belos olhos de amêndoa, mas as pessoas diziam-no, sem dúvida, porque o seu nariz era demasiado pequeno e a boca um pouco grande. Além disso, as orelhas estavam demasiadamente juntas aos olhos. Mas o mais grave eram os cabelos lisos, difíceis de tratar. Por vezes, o pai passava a mão pelos seus cabelos e chamava-lhe “a moça dos cabelos de linho”, referindo-se a uma composição de Claude Debussy. Para ele era fácil dizê-lo, visto que não estava condenado para toda vida a ter cabelos compridos e negros, completamente lisos. Nos cabelos de Sofia nem o gel nem os sprays faziam efeito.
Por vezes, achava-se tão estranha que se perguntava se não seria disforme de nascença. A sua mãe tinha-lhe falado num parto difícil. Mas seria possível o nascimento determinar, de fato, a figura de cada um?
Não era estranho que ela não soubesse quem era? Não era absurdo não poder decidir nada quanto à sua figura? Tinha simplesmente nascido consigo. Podia escolher os seus amigos, mas não se escolhera a si mesma. Nunca tinha decidido que queria ser um ser humano... O que era um ser humano? Sofia observou de novo a moça do espelho.
— Vou mais é fazer os meus trabalhos de biologia — disse, como que se desculpando. Em seguida, estava à entrada da casa.
— Não, prefiro ir para o jardim — pensou.
— Bichano, bichano, bichano!
Sofia enxotou o gato para a escada e fechou a porta.
Quando ia pelo caminho de saibro com a misteriosa carta na mão, teve uma estranha sensação. Imaginava-se como um boneco que, por artes mágicas, se tivesse tornado vivo.
Não era estranho que estivesse no mundo e pudesse tomar parte naquela aventura?
Sherekan saltou elegantemente pelo caminho de saibro e desapareceu por entre os espessos arbustos. Um gato vivo, desde a ponta dos bigodes brancos até à cauda ondulante na extremidade do corpo. Também ele estava no jardim, mas certamente não estava tão consciente disso como Sofia.
Depois de ter pensado um pouco acerca do fato de existir, começou também a pensar que não estaria ali sempre.
“Neste momento estou no mundo”, pensou, “mas um dia terei desaparecido”.
Haveria uma vida após a morte? O gato também não tinha a mínima consciência deste problema.
A avó paterna de Sofia tinha morrido recentemente.
Quase todos os dias, há mais de meio ano, Sofia pensava no quanto sentia a sua falta.
Não era injusto que a vida tivesse sempre um fim?
Sofia parou no caminho de saibro, cismando. Procurou concentrar-se no fato de existir, procurando assim esquecer que não existiria sempre. Mas isso era de todo impossível. Quando se concentrava no pensamento da sua existência, emergia imediatamente a idéia do fim da vida.
O contrário era igualmente verdadeiro: só quando se apercebia que um dia teria desaparecido, compreendia claramente que a vida era infinitamente valiosa. Era como as duas faces da mesma moeda, uma moeda que ela virava constantemente. E quanto maior e mais clara era uma face da moeda, maior e mais clara se tornava também a outra. A vida e a morte eram duas faces do mesmo problema.
Não podemos imaginar que vivemos sem pensar que temos de morrer, dizia para consigo. Do mesmo modo, é impossível refletir sobre o fato que temos de morrer sem sentirmos simultaneamente que viver é algo maravilhoso.
Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da sua doença, dissera algo semelhante. — Só agora tomo consciência de como a vida é rica — dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que ficar doente para reconhecer que a vida era bela? Talvez tivesse bastado receber uma carta misteriosa!
Decidiu verificar se teria chegado algo mais. Sofia correu para o portão e espreitou para dentro da caixa do correio. Ficou espantada quando encontrou um envelope totalmente idêntico. Mas, será que verificara, quando retirou a primeira carta, se a caixa estava, de fato, vazia? Naquele envelope também estava escrito o seu nome.
Abriu-o e retirou uma folha branca, igual à primeira.
“De onde vem o mundo”? — estava escrito.
Não fazia idéia. Ninguém sabe tal coisa! E, no entanto, Sofia achou esta pergunta legítima. Pela primeira vez na sua vida pensou que era quase impossível viver num mundo sem perguntar pela sua origem.
Num canto do jardim, por detrás das framboeseiras, havia uma espessa moita que não produzia nem flores nem frutos. Na realidade, tratava-se de uma velha sebe, que fazia fronteira com o bosque, e que tinha crescido até se transformar numa moita impenetrável porque, nos últimos vinte anos, ninguém cuidara dela. A avó contara que durante a guerra, altura em que as galinhas corriam livremente pelo jardim, a sebe tinha tornado um pouco mais difícil a caça às galinhas, levada a cabo pelas raposas.
Para os outros, a velha sebe era tão inútil como as coelheiras antigas, que ficavam um pouco mais à frente no jardim. Mas ninguém conhecia o segredo de Sofia. Tanto quanto Sofia se conseguia lembrar, tinha descoberto uma estreita passagem através da sebe. Quando a atravessava engatinhando, atingia rapidamente um grande espaço, que era o seu esconderijo. Aí, podia estar completamente segura de que ninguém a encontraria.
Com os envelopes na mão, Sofia atravessou o jardim correndo e rastejou com o apoio dos braços através da sebe. A toca era tão grande, que quase podia ficar de pé, mas decidiu sentar-se numas raízes grossas. De dentro conseguia ver para o exterior, através de dois orifícios minúsculos, por entre ramos e folhas. Apesar de nenhuma destas aberturas ser maior do que uma moeda, ela tinha o panorama de todo o jardim. Quando era menor, observava divertida a mãe ou
o pai à sua procura, no meio das árvores. Para Sofia, o jardim tinha sido sempre um mundo à parte. Sempre que ouvira falar do jardim do Éden na história da Criação, lembrava-se da sua toca e de como era estar lá sentada e observar o seu próprio pequeno paraíso.
“De onde vem o mundo?”
Não, ela não o sabia.
Sofia sabia obviamente que a Terra era apenas um pequeno planeta no universo imenso.
Mas de onde vinha o universo?
Era possível pensar que o universo tivesse existido sempre; sendo assim, não precisava procurar a resposta para a pergunta sobre a sua origem. Mas poderia alguma coisa ser eterna? Qualquer coisa nela recusava esta idéia. Tudo o que existe tem que ter um começo. Por isso, o universo tinha de ter surgido de outra coisa.
Mas se o universo tivesse surgido subitamente de uma outra coisa, então também esta outra coisa teria de ter surgido, a dada altura, de uma outra. Sofia compreendeu que apenas diferia o problema. Afinal, alguma coisa teria de ter surgido do nada a certa altura. Mas seria isso possível? Este pensamento não seria tão impossível como o de o mundo ter sempre existido?
Na aula de religião, aprendiam que Deus tinha criado o mundo, e Sofia procurou então tranqüilizar-se com a idéia de que essa era, no fundo, a melhor solução para o problema. No entanto, começou de novo a pensar.
Podia facilmente aceitar que Deus tivesse criado o universo, mas o que se passava pensando em Deus? Será que se tinha criado a si mesmo do nada? De novo, algo nela discordava deste pensamento.
Apesar de Deus poder criar todas as coisas, dificilmente se poderia criar a si mesmo, antes de ter um “ele mesmo”, com o qual pudesse criar.
Restava apenas uma possibilidade: Deus existira sempre. Mas ela já pusera de parte essa possibilidade. Tudo o que existia tinha de ter um começo.
— Que diabo! — Abriu de novo os envelopes. — Quem és tu?
— De onde vem o mundo? Que perguntas terríveis!
E de onde vinham ambas as cartas? Isso era igualmente misterioso. Quem é que arrancara Sofia à realidade quotidiana e a confrontara subitamente com os grandes enigmas do universo?
Pela terceira vez, Sofia foi à caixa do correio. Só nesta altura é que o carteiro tinha trazido a correspondência diária. Sofia retirou um monte de correio com publicidade, jornais e duas cartas para a mãe. Havia também um postal, com a fotografia de uma praia do Sul. Voltou o postal. Tinha selos noruegueses e o carimbo “Contingente ONU”. Seria do seu pai? Mas ele não estava noutro lugar? De resto, não era a sua letra.
Sofia sentiu o pulso bater com mais força à medida que lia a direção no postal. “Hilde Möller Knag, a/c Sofia Amundsen, Klöverveien 3... O resto da morada estava correto. No postal estava escrito:
“Querida Hilde! Parabéns pelos teus 15 anos! Como compreendes, quero dar-te um presente, que te ajudará a crescer. Peço desculpa por mandar o postal pela Sofia. Era mais fácil deste modo.
Saudades, do pai”
Sofia correu para casa e precipitou-se para a cozinha. Sentia uma tempestade dentro de
si.
Quem era esta “Hilde” que completava 15 anos um mês antes do seu aniversário?
Foi buscar a lista telefônica à entrada. Havia muitas pessoas com o nome Möller, e algumas com o nome Knag, mas em toda a lista telefônica não havia ninguém com o nome Möller Knag.
Examinou de novo o misterioso postal. Sim, era autêntico, com selo e carimbo.
Porque é que um pai enviaria um postal de aniversário para a morada de Sofia, se era óbvio que devia ser enviado para outro local? Que tipo de pai enviaria um postal de aniversário para o endereço errado, impedindo que a filha o recebesse? Como é que poderia ser “mais fácil” deste modo? E principalmente, como poderia ela encontrar essa tal Hilde?
Sofia tinha então mais um problema que se tornava um quebra-cabeças. Procurou de novo organizar as idéias na sua mente.
No decorrer de poucas horas, tinha sido confrontada com três enigmas. O primeiro enigma dizia respeito à identidade da pessoa que tinha posto ambos os envelopes brancos na sua caixa do correio. O segundo eram as questões difíceis que estas cartas colocavam. O terceiro enigma era quem era Hilde Möller Knag e por que motivo Sofia tinha recebido um postal de aniversário endereçado a esta moça desconhecida?
Ela tinha a certeza de que estes três enigmas estavam de algum modo relacionados, visto que, até então, vivera uma existência normal.



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Filosofia o bom o verdadeiro e o belo, surgiu com o intuito de passar a filosofia de vida de uma maneira simples e fácil sobre o entendiment...